sábado, 3 de maio de 2008

Lucio Sanfilippo. Disco novo previsto para setembro de 2008"



1.Desde a infância você era ligado à música?

Sim. Meu avô Lucio Sanfilippo tocava tarantelas ao acordeão. Meu tio Remo tocava guitarra e violão. Fora isso, meu pai sempre ouviu muita música desde que eu era pequeno: Clara Nunes, todos os discos do Roberto Carlos, dos Festivais de San Remo da Itália, tarantelas, Cláudio Villa, Aurelio Fierro, as coleções de compositores que se vendiam nas bancas de jornal, como Ataulfo Alves, Chico Buarque, Luiz Gonzaga e também muita Gal Costa, Caetano Veloso e trilhas das novelas da Globo, que eram maravilhosas.


2.Como surgiu a idéia de gravar o primeiro disco?

Eu, muito honrado, tinha recebido um convite pra gravar as músicas do Lenildo Gomes (bandolinista do excelente Dobrando a Esquina) e do Luiz Flávio Alcofra (violonista do Água de Moringa) num disco lindo chamado Cordel da Fitas, que contou tb com a presença da Clarice Magalhães (pandeirista do Choro na Feira) e que saiu em 2001. Fiquei com vontade de gravar outro mais autoral com as minhas músicas e com as músicas da minha infância e dos compositores de que gosto. A Ana (Costa) e o João (Hermeto) toparam a idéia e demos corpo ao projeto.


3.Como você avalia o seu primeiro CD Canções de amor ao Leo?

Eu, sem falsa modéstia nenhuma, acho meu disco um dos melhores que já ouvi. A Ana Costa e o Joãozinho Hermeto arrebentaram nos arranjos e tb tocando, e os músicos são todos maravilhosos. Tem Lia de Itamaracá, Tia Maria do Jongo, Coco de Umbigada de Guadalupe-PE, Razões Africanas (Dely Monteiro, Lazir Sinval, Luiza Marmello, Anderson Vilmar, Marcello Mattos e o Joãozinho), Bianca e Dedé Alves, na época, do O Roda e músicos do naipe de Dani Spielmann, Nicolas Krassic e Nilze Carvalho. Um repertório mais do que brasileiro, mostrando toda a beleza de ritmos como jongo, coco, afoxé, ciranda, maxixe, com compositores excelentes. Enfim, um disco lindo em todos os aspectos. Pena a pouca divulgação. Tem sites que descobriram o disco (lançado há dois anos) somente agora e fizeram críticas excelentes. Eu vendi quase que de mão em mão entre 1500 e 2000 CDS.


4.Quais são as suas influencias?

Gal Costa, Caetano Veloso, Maria Bethânia, Gilberto Gil, Dorival Caymmi, Djavan, Marisa Monte, Orlando Silva, Aracy de Almeida, Elizeth Cardoso, Paula Toller, Elis Regina, Ciro Monteiro, Clara Nunes, Claudio Villa, Beniamino Gigli, Aurelio Fierro e tantos outros... Hoje ouço muito Moyséis Marques e Marcos Sacramento. Também tenho influência imensa dos ritmos brasileiros da cultura popular, do candomblé e do folclore.


5.Quais seus planos para 2008?

Lanço meu disco no segundo semestre e também lanço este ano meu livro para-didático sobre interdisciplinaridade e cultura popular. Vou tentar fazer com que os dois ocorram simultaneamente. Também vamos gravar o disco do Razões Africanas e vou fazer mais dois desfiles do Galinha d’Angola, dia 13 de maio e dia 20 de novembro, pelo menos.


6. O que o público pode esperar do seu próximo CD?

A minha gravadora ZAMBO DISCOS me fez o convite pra fazer um novo disco este ano. Lanço então, em setembro, cd de inéditas minhas e de compositores amigos e maravilhosos com muito samba, jongo, maracatu, coco, marcha-rancho, afoxé... Que é realmente a minha praia. Participações especiais confirmadas de Tia Maria do Jongo, Razões Africanas (Dely Monteiro, Lazir Sinval e Luiza Marmello + Marcello Mattos e Anderson Vilmar) e Roberta Nistra. Arranjos de Marcelo Menezes e Ana Costa.


7. O grupo Razões Africanas trabalha em cima de diversos ritmos como: Jongo e Afoxé. Você acha que a cultura afro deveria ser mais divulgada no Brasil?

Acho que tem que ser mais divulgada sim, por isso vou lançar este livro e colaboro, agora como voluntário, com o LCPF/UERJ, um laboratório de folclore e cultura popular dentro da universidade publica, coordenado pela professora doutora Zezé do Folclore. Ministro oficinas de danças populares e vou lançar este cd novo valorizando sempre a nossa cultura. Fora o trabalho com o Razões Africanas que me dá esse prazer imenso (pretendemos gravar um disco ainda este ano tb) ainda participo de um coral que canta em línguas africanas coordenado pela minha Mãe Pequena, a Ialê Lucinha Pessoa e fundamos tb o bloco afro Galinha d’Angola, o “Vai Conquém?”


8. No seu disco podemos observar muitas influencias, estilos variados. Como você define a sua música?

Eu a defino como música brasileira. Porque é resultado da mistura das minhas influências que são negras, brancas e indígenas em sua mais alta e forte essência. Mas há quem o classifique de regional. Acho lindo, de qualquer forma (risos).


9. Uma de suas paixões é o Candomblé. Como você vê a religião nos dias de hoje?

Eu sou um apaixonado pela minha religião. Amo os orixás, o meu orixá, o meu pai de santo, minha mãe pequena, meus irmãos. Somos uma família. Sei que existe um monte de gente que entra na religião perdido ou só pra aparecer. E sei também que tem um monte de mau caráter aí usando o nome do candomblé pra fazer suas falcatruas. Mas mau caráter tem em qualquer lugar. Religião - sempre foi muito claro na minha cabeça - é pra se encontrar, se religar com o divino, difundir o amor, que é a coisa mais importante do mundo. Mas cada um tem um caminho religioso, dentro ou fora do candomblé. Sigo meu caminho, orientado pelo meu zelador, pelo meu orixá e pela minha consciência que, por sua vez, é guiada pelo amor. Aprendi cedo com minha mãe e passo pro meu filho que temos que fazer nossa parte, ser bons, que temos que amar que temos que trabalhar pagar nossas contas em dia e levar a vida com bom humor, respeito e felicidade. Se você perguntar pro meu filho Leonardo qual é a coisa mais importante do mundo, ele vai responder que é o amor, porque reforço isso a cada dia. Acabamos de perder Ia Nitinha, matriarca do Engenho Velho e da nação Ketu no Brasil, segunda pessoa da Casa Branca, o terreiro de candomblé mais velho do Brasil e minha avó de santo. Com ela vão muita sabedoria e muita disciplina religiosa. Ficamos nós com a responsabilidade de manter em alta conta a nossa religião e o nome de nosso Axé Ia Nasso Oka com muito amor, dignidade e força!


10. O que você tem escutado ultimamente?

Moyséis Marques, Edu Krieger, Roberta Sá, Marcos Sacramento, Gal Costa, Simone Guimarães, Vanessa da Mata (estou apaixonado por Carta e a Força que nunca seca), Adryana BB, Gonzaguinha, Marcelo Menezes e um disco chamado Alumeia - O Cerrado que a Velha Canta maravilhoso. Passei tudo pro meu mp4 e ouço no carro e quando estou correndo malhando. Meu dia é sempre cheio de música.
Jogo Rápido

Livro: KITABU, NEY LOPES E GALINHA D’ANGOLA (José Flávio Pessoa de Barros, Arno Vogel e Marco Antônio da Silva Mello
CD: Tenho ouvido os do Krieger, do Moyséis e da Roberta Sá. Adoro Plural e Gal, da década de 90 da Gal Costa
Música: CARTA (Vanessa da Mata)
Compositor: pra citar 3 dos que mais gosto, Mauro Duarte, Délcio Carvalho e Wilson moreira e dos novos, Pedro Holanda, Edu Krieger e Moyséis Marques
Instrumento: Violão, principalmente tocado pelo Marcelo Menezes
Cantora: GAL COSTA, Aracy de Almeida e as Meninas da Serrinha (Lazir Luiza e Dely) das novas, Elisa Addor, Patrícia Oliveira e Roberta Nistra Cantor: Caetano Veloso, Moyséis Marques e Marcos Sacramento
Show: O Sorriso do Gato de Alice
Cidade: Rio de Janeiro
Time: FLUZÃO
Cor: AZUL E AMARELO
Atleta: Paula, do basquete
Filme: Sempre revejo a Cor Púrpura
Ator: Rubens Correa
Atriz: da minha geração Dora Simões e Juliana Jardim e, já consagrada, pra citar uma das que mais gosto, Regina Casé
Escola de Samba: PORTELA
Sonho: de me sustentar e dar conforto a mim e minha família por intermédio da minha arte
Palavras ao Zanzei
Ao Zanzei, na figura do Dodi, muito sucesso e minhas congratulações pela excelente idéia. Agradeço imensamente pela oportunidade de falar de mim e do meu trabalho e pela forma carinhosa como tenho sido tratado. Também por poder saber do trabalho dos meus colegas. Sorte pra todos! Grande abraço.

sábado, 12 de abril de 2008

Ana Costa conta um pouco da sua história no Zanzei.



Meu Carnaval – Ana Costa

Revelação no 5º Prêmio Rival Petrobras de Música 2006, indicada como melhor cantora de samba e melhor cantora no voto popular na 5ª edição do Prêmio Tim de Música 2007 e
Cantora do tema do Pan 2007 “Viva Essa Energia” com Arnaldo Antunes.

Cantora, instrumentista e compositora, Ana Costa desponta no mundo do samba. Sua voz está presente em Meu Carnaval, seu primeiro CD solo, lançado em março de 2006 pela Zambo Discos, com produção de Bianca Calcagni. O CD também contou com arranjos de Paulão 7 cordas e Alceu Maia. Ana Costa também acompanhou artistas de peso como Beth Carvalho, Wilson Moreira, Velha Guarda da Portela, Martinho da Vila, Elza Soares, Dona Ivone Lara, Leci Brandão, Jorge Aragão, João Nogueira e Zé Kéti, entre outros.

Confira o que rolou nesse bate papo.

1- Zanzei: Como surgiu o interesse por música? E quais foram as primeiras influências?

Ana Costa: Meu interesse por musica surgiu em contato com amigos que já tocavam. O incentivo que tive de família foi um violão que me foi presenteado pela minha mãe. Mas aprendi a tocar sozinha e através daquelas antigas revistinhas de musica pra violão. Depois o contato com outros músicos foi fundamental pra minha formação.

2 - Zanzei: O que o grupo Roda representa na sua vida?

Ana Costa: Representou um momento muito importante na minha vida principalmente de auto-afirmação como sambista, aprendi muita coisa, conheci muita gente e como éramos um grupo, tivemos oportunidade de acompanhar muitos sambistas importantes: João Nogueira, Velha Guarda da Portela, Beth Carvalho, Tantinho da Mangueira, Wilson das Neves, D. Ivone Lara e tantos outros...Fizemos um trabalho verdadeiro e sei que serviu de incentivo a tantas outras meninas que hoje tocam por aí.

3 – Zanzei: Nos dias de hoje, a mulher tem mais espaço no mundo do samba?

Ana Costa: Muito mais. Temos ótimas cantoras, instrumentistas. A quinze anos atrás, pelo menos, víamos muitas mulheres em rodas cantando apenas como “apoio” pros músicos. Tem uma geração nova por aí que vive de musica,faz samba e muito bem feito.

4 – Zanzei: Como você avalia essa parceria com Zélia Duncan?

Ana Costa: Uma parceria muito bem sucedida. Zélia é fera, me ensina muita coisa. Eu a conheci através da Martnalia que é outra maravilha e todas as musicas que fizemos até agora deram muito certo. Sou fã das duas e quero estar sempre perto delas.

5 – Zanzei: Cantora, compositora e violonista. Qual desses talentos você mais gosta?

Ana Costa: Gosto de tudo mas confesso que ultimamente meu violão anda meio abandonado. Tenho cantado bastante por aí mas quero pegar mais na viola.

6 – Zanzei: O que você tem escutado ultimamente?

Ana Costa: Mônica Salmaso cantando Chico, redescobri uns sons instrumentais da década de 80 do Ricardo Silveira (guitarrista fantástico), tem o Cd novo do Moacir Luz com o Marçalzinho, Mart’nalia Ao Vivo, Marina Lima (CD TRÊS – é fantástico), Tem o Celso Fonseca que é maravilhoso e pra fechar a lista, o bom e velho NOEL ROSA.

7 – Zanzei: A mais recente conquista na sua carreira foi cantar no Pan do Brasil para mais de 90 mil pessoas. Sua experiência na música lhe ajudou naquele momento? Como foi?

Ana Costa: Ajudou e muito. Foi maravilhoso, foi muito estimulante pra minha carreira. Apesar de já ter tanto tempo fazendo o que faço, a maioria das pessoas que ali me viram nunca tinham ouvido falar de mim. E senti da comunidade do samba um carinho enorme. Era como se eu tivesse representando toda uma geração. Foi lindo.

8 – Zanzei: Qual análise você faz do seu primeiro cd solo ‘Ana Costa, Meu Carnaval’? Já pensa no próximo?

Ana Costa: Esse CD foi muito bem sucedido. Dei um salto muito grande na minha carreira ao lançá-lo. Meus 10 anos no Grupo O Roda por 1 ano e pouco de lançamento desse CD (Risos).
E não é só isso não. Esse CD foi lançado pelo selo Zambo Discos que é uma parceria minha com a Bianca Calcagni. Conseguimos distribuí-lo e atingir pontos jamais imaginados à uns 2 anos atrás. Depois dele vieram o CD da Mariana Baltar, do Galocantô, todos muito bem sucedidos também. Ta sendo uma grande conquista!
Penso num próximo CD sim mas sem pressa.

9 – Zanzei: Você esta feliz com o atual momento do Samba?

Ana Costa: Muito feliz. O samba está sendo valorizando cada vez mais seja nos bares, nas escolas de samba, nos teatros, casas de shows. O público vem crescendo e a faixa etária de admiradores do nosso samba é bastante variada. Tem samba pra todos os “bolsos” inclusive:existem os pagodes maravilhosos que são muito bem freqüentados, existe o samba nas casas de shows mais populares ou até nas mais sofisticadas, tem samba nos bares que cobram couvert super barato outros que nem tanto e assim vai.

10 – Zanzei: Depois de ter ganho ano passado o prêmio Rival de revelação, você foi indicada para melhor cantora de samba no prêmio Tim, ao lado de Alcione e Marisa Monte. Como foi esta emoção?

Ana Costa: Antes de tudo quando fiz esse CD meu objetivo principal era entrar no mercado pra ampliar meus horizontes, fazer mais show e principalmente poder mostrar mais a minha sonoridade. Daí a coisa foi andando de tal jeito que cheguei ao Premio Rival, concorri no Prêmio Tim e aí caiu a ficha!! Estar ali ao lado dessas duas divas só me fez perceber que eu tinha traçado um caminho que não tem mais volta. Alcione é a maior cantora desse Brasil na minha opinião e Marisa é o bom gosto em pessoa, tem o controle total nas produções dela além de ser uma grande cantora e com muita cultura musical e geral. E eu ali entre as duas percebi finalmente que o meu trabalho está só começando. Isso tudo serviu de incentivo pra mim e me trouxe a certeza que posso dar muito mais.

11 – Zanzei: Quais são seus próximos planos na música?

Ana Costa: Tenho planos de montar um show com musicas novas, alternando com as já divulgadas do meu CD . Final do ano começo a gravar um novo CD.

12 – Zanzei: A lapa é o reduto de grandes músicos. Como você se sente quando esta lá?

Ana Costa: Feliz e satisfeita de ver a Lapa bombando e com uma diversidade musical invejada em qualquer parte do mundo.

13 - Fale pra gente sobre:

Martinho da Vila (Seu Padrinho)
Ana Costa: MARTINHO é um cara da antiga mas é moderno, sua música é altamente sofisticada e popular ao mesmo tempo, é um cara do Brasil mas é do mundo também....enfim, sempre os dois lados. Isso já diz tudo e define a minha paixão por ele.

Mart’nália (Onde você tocou violão e cavaquinho)
Ana Costa: Parceira musical, companheira, super artista, intuitiva, alegre, boa compositora, voz “quente”. Os dois anos que fiquei na banda fui muito feliz, cresci musicalmente e artisticamente além de ter tido a oportunidade de tocar nos EUA, Europa além de ter participado do PROJETO PIXINGUINHA rodando o nordeste.

Bianca Calcagni (Produtora e Amiga)
Ana Costa: Minha grande incentivadora, melhor amiga, além de ser a minha produtora, sócia. Temos uma estória muito bonita de garra, dividimos todas as alegrias e tristezas. É um “casamento” profissional que tem dado certo a mais de 10 anos.
Ana Costa e Bianca Calcagni


Jogo Rápido

Livro: Todos de Alan Kardec (literatura Espírita)
Música: Tantinho, Memória em Verde e Rosa (já a algum tempo esse é o melhor!!)
Filme: Memórias de uma Gueixa
Instrumento: Violão
Cantora: Zélia Duncan
Cantor: Tantinho, Toni Platão
Cidade: Meu Rio de Janeiro
Time: Fluminense
Cor: Todas
Atleta: Shelda (vôlei de praia). A pequena Jade
Ator: Marco Nanini
Atriz: Marieta Severo
Escola de Samba: Vila Isabel em 1º lugar. Mangueira que é o chamego da maioria dos cariocas!!
Ídolo: Noel Rosa
Viagem: Tahiti
Sonho: Paz e entendimento entre as nações.
Site: http://www.anacosta.art.br/

Contato: contato@zambodiscos.com.br

Palavras ao Zanzei:

"Quero desejar a todos muita paz e saúde e dizer que estou muito agradecida por ter essa oportunidade de estar aqui falando um pouco de mim, da minha música, compartilhando com todos essa minha trajetória. Que a música esteja presente sempre na vida de todos que buscam o belo e a paz interior."

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

Da Boca pra fora - O Samba Paulistano é marginal e vive na Boca do Lixo!

Marcus Marmello Texto


“O terceiro mundo vai explodir... quem tiver de sapato não sobra” – Rogerio Sganzela em “O Bandido da Luz Vermelha”.

Dizer que a Boca do Lixo, hoje só é referência de prostituição e comércio de eletrônicos é uma grande estupidez, fruto da ignorância a que o mundo está fadado, existe alguns que acreditam que Jornalismo se faz com um bom texto e atrás de um computador. Infelizmente o mundo virtual vicia o Jornalista ao mundo encantado da preguiça. Isso não é regra... Ok?

Senão vou receber um Kg de e-mail s de gente dodoizinha.

A Boca do lixo na década de 70 foi o pólo de cinema de São Paulo, arrebatado pela influência do cinema novo, “Uma câmera na mão e uma idéia na cabeça” de Glauber, surge o primeiro movimento “Punk-cinema” talvez do mundo. O cinema marginal paulistano.

Há muito mais história cultural entre as avenidas Rio Branco e Duque de Caxias no centro de São Paulo, do que pode supor qualquer filosofia. Aproximadamente 700 filmes foram produzidos na região da Boca do Lixo, nome concebido pela crônica policial da década de 70 devido a prostituição e “bate-carteiras”. Vamos dizer assim que era uma versão mais turbinada da Lapa carioca, que na década de 70 já não tinha tanta importância para a juventude “socialista e revolucionária” do pós cinema novo. Só que a Lapa não é mais marginal, a Boca sim.

Isto me fez pirar na década de 80. Filmes como Copacabana Mon Amour, Bandido da Luz Vermelha, e vários outros, se eu ficar citando aqui nome de filme eu fujo do foco. Vamos lá...

O caráter cultural do lugar nunca morreu, mesmo quando na década de 90, os caras que escrevem colunas policiais, começaram a chamar o local de “Crackolandia”. Como uma forma de marginalizar ainda mais o local, mas por incrível que pareça existe e sempre existiu uma coisa lá que pouca gente fala, cultura.

A Boca do lixo sempre foi pólo de cultura na cidade de São Paulo, tanto que hoje a Secretaria de Cultura fica ali na região da Luz.

O Problema é que São Paulo, como sempre, veste-se de consumidor de cultura e não como fomentador. O que deveria ser política de Estado vira obrigação e motivo de marginalização.

E é nesse cantinho da Boca do Lixo, precisamente na Rua General Osório que todo sábado e principalmente no último sábado do mês, que a cultura do samba, se veste de São Paulo.

Diferentemente da Vila Madalena e de Pinheiros que celebram um samba mais embrulhado com laços de fita cor de rosa, para um público de meninos e meninas encantados com o samba e que pagam (o que é bom). A Boca do Lixo celebra o samba de Raiz por gente que é de Raiz. A Boca é o reduto, é de onde nasce o samba de São Paulo e onde os sambistas do Rio têm como referência em São Paulo.

Ouvia sempre dos coroas de onde cresci (no bairro de Irajá – Rio de Janeiro) que no samba o mais importante era saber chegar pra poder sair.
Que num resumo poderia ser: Saber chegar, respeitar quem já está lá, mostrar o seu próprio valor, conquistar o seu espaço, e ainda o mais difícil, sem perder a humildade,e sair sabendo do respeito que conquistou. Isso é difícil?
Respondo a você... É.

A amizade, o respeito e principalmente a ética são fatores primordiais para um sambista. E nisto exclui-se os bairrismos babacas. Pois é através da ética que se estabelecem relacionamentos de convivência entre profissionais afins.
Uau...falei bonito, me senti doutor.
E como bom carioca paulistano que sou a cada dia que passa mais entendo o porquê da região da Santa Ifigênia ser de vital importância para a cultura paulistana e brasileira.

“Incrível Fantástico extraordinário
Crime na cidade na boca do lixo
Cadê o bicho, cadê o bicho, cadê o bicho, cadê o bicho”.

Jovelina Pérola Negra

Música: Boca do Lixo

( Reco Primavera - Mário Gogó - Marquinho Pagodeiro)

Que o samba sempre viveu à margem, isto é, que o samba é marginal... Isso é fato. Basta ver a quantidade de rádios em São Paulo ou no Rio que realmente tocam samba. E o fomento e o respeito que o samba recebe fora do período do carnaval?
“Alô Alô Presidente Adamastor
Samba não é só de enredo
meu filho! “

E dizer que a maioria dos sambistas brasileiros um dia esteve na Boca do Lixo, é a mais pura verdade. Nesta mesma década de 70, era comum você encontrar Almir Guineto, Zeca Pagodinho, Originais do Samba, Jamelão, Paulinho e muitos outros, freqüentarem e até morarem temporariamente na Boca.

Até hoje em dia a Boca é um local onde todo mundo se encontra, compositores, músicos, interpretes, de todo o mundo do samba e do choro.
Nada mais à margem do que o choro.

Pedi ao Céu um remédio que possa curar... (Luverci Ernesto e Almir Guineto )
Alí na Boca que conheci Luverci Ernesto, parceiro de muitos sambas com Almir Guineto, Dedé Paraíso, e pasmem, o cara foi parceiro de Baden Powell. Teve musicas gravadas pelo Zeca, Alcione, Beth, Quinteto, e outros. Teve uma vez que ele me deu um CD com aproximadamente 60 musicas dele gravadas ainda na época do vinil por gente que hoje é grande, mas que na época estavam ali... De bobeira?
Se a gente passear pela MPB encontramos Caetano Veloso que imortalizou a região com Sampa. E principalmente por Paulo Vanzolini com Ronda.

Se eu for falar de todo mundo de samba que já esteve na Boca do Lixo o meu tempo não dá, não dá.
O Luverci, o mestre Luva, me fez ver, entender e respeitar o local.

Quem aparece...não desaparece, só morrendo.

Apesar de o local ser freqüentado por todo mundo, que baixa lá no último sábado do mês para o famosa “Rua do Samba”, evento patrocinado pelo governo do estado, durante os outros sábados a porta da loja Contemporânea na General Osório, serve como local de encontro de todo lugar do Brasil. Almir Guineto, Mazinho do Salgueiro, Esguleba, D. Inah, Wilson Moreira, Paulão, Murilão, Izaias do Bandolim, Ayrton Santa Maria, Oswaldinho da Cuíca, , Tobias da Vai Vai, , Bandeira Brasil, e de outros sempre que podem estão ali...por que será, né?

Um lugar, que acreditem o mundo inteiro freqüenta, é muito comum ver turistas na roda de choro da Contemporânea. Roda que existe graças ao Seu Miguel (que tem o título de imortal do samba)

O local serve de referência tanto para rever os amigos, para adquirir um novo instrumento, trocar informações, divulgar trabalhos, ouvir o chorinho, e aí o bicho pega. Chorão é o que não falta.
E depois de ver essa galera, esticar no boteco em frente onde o “Centro do Samba” faz uma roda de respeito, sob o comando de outro compositor e amigo, Beto Velasco. Aproveito para mandar um abraço ao Jamil, Tadeu, Ronaldo, Dodô e Cristiano, o velho Mamute. Que sempre me tratam com respeito, e que compartilham o velho telecoteco do meu tamborim.

E nestas idas e vindas, tive o prazer de conhecer um pouco da história do lugar desde que a Contemporânea era uma lojinha, onde seu Miguel fazia instrumentos de percussão e de onde nasceram sambas maravilhosos.
Se estivéssemos passeando pela Boca do Lixo, no início da década de 70, poderíamos ver além de Julio Bressane, Rogerio Sganzela, Zé do Caixão e Índio, veríamos também muita gente do samba.

Então antes de falarem que o samba está na Vila Madalena, acredito que os paulistanos e os brasileiros que gostam de samba, deveriam conferir de onde ele vem e onde ele nasce em São Paulo...
Este é o samba da Boca do Lixo.
Valeu... Fui.

Marcus Marmello
Sambista,Carioca, Paulistano e Compositor
contato@marcusmarmello.com